‘Ela também era minha mãe’, diz irmã de vítima de acusados de canibalismo

Audiência de instrução é aberta ao público, em Garanhuns (Foto: Kamylla Lima / G1 Caruaru)
A irmã, a prima e uma amiga de uma das vítimas do trio acusado de canibalismo foram ouvidas na audiência de instrução desta quinta-feira (29) em Garanhuns, Agreste de Perambuco. “Falei com ela [irmã] na manhã antes do desaparecimento. Ela disse para mim que era minha irmã, mas também minha mãe. A última palavra que ouvi dela era que me amava”, disse a irmã de Giselly Helena da Silva, vítima dos acusados. 

As defesas do trio alegam coações e falha em laudo, e trabalham de forma independente. Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, Isabel Cristina Torreão Pires e Bruna Cristina Oliveira da Silva são acusados de duplo homicídio triplicamente qualificado, vilipêndio (violação) e ocultação de cadáver, segundo o promotor Jorge Dantas.

“Quando recebi a fatura do cartão da minha irmã, vi que havia compras realizadas em cinco lojas. Avisei à polícia, que começou a investigar. A polícia descobriu, por meio de filmagens, que Jorge e Bruna [dois acusados] estavam fazendo essas compras. Então, os policiais começaram a observar a casa na qual o trio morava”, conta a irmã da vítima.

Ela diz que houve um momento no qual a polícia percebeu que o trio tinha saído da casa. “Quando eles entraram, encontraram uma criança. Eles perguntaram se ela estava sozinha e a menina disse: ‘Estou com as duas mulheres que meu pai matou’. Ela mostrou aos policiais a foto de Giselly. Eu só queria justiça. Não é fácil saber que essas três pessoas fizeram isso com ela”, conta a irmã emocionada.
Em depoimento, a prima de Giselly disse que se considerava inimiga dos acusados. “Digo isso porque eles mataram minha prima. Quinze dias antes de desaparecer, ela me falou que um homem a perseguia”, relata. Já a amiga contou que a vítima teve depressão pós-parto. “Ela perdeu a guarda dos filhos para o pai. Era guerreira, trabalhava. Ela era o homem da casa”, ressalta.
Defesa
Os advogados de defesa dos integrantes do trio acusado de canibalismo conversaram com o G1antes da audiência de instrução começar.
Advogado Rômulo Lira (Foto: Kamylla Lima / G1 Caruaru)Advogado Rômulo Lira defende Bruna Cristina
(Foto: Kamylla Lima / G1 Caruaru)
O advogado Rômulo Lira está defendendo Bruna Cristina Oliveira da Silva. “Nós não vamos bater na parte da insanidade mental, porque isso aí vai ficar na defesa do Jorge. A defesa da Bruna será no coação moral irresistível, porque ela era coagida pelo Jorge a participar de tudo que eles fizeram”.
“O que tem que ser analisado de Bruna não é apenas o que ela fez. Lógico que é abominável, ninguém pode dizer que é uma coisa normal. O ato de ceifar a vida de um ser humano não é normal. O crime foi bárbaro. O crime é abominável. Mas o que queremos mostrar é que todos têm direito a uma defesa”, diz Rômulo.
Paulo Sales (Foto: Kamylla Lima/ G1)Paulo Sales alega que Isabel sofreu coação
(Foto: Kamylla Lima/ G1)
O defensor de Isabel Cristina Torreão Pires, Paulo Sales, também alega que houve coação moral irresistível. “A tese de defesa da Isabel é de coação moral irresistível – quando alguém pratica um crime sob coação de terceiros. No caso de Isabel, ela sofria coação do esposo Jorge, que é esquizofrênico, paranóico e é um cara violento. E a ameçava fisíca e psicologicamente para cometer esse delito”, relata.
Giovanni Martinovich de Araújo Calábria, advogado (Foto: Kamylla Lima/ G1)Giovanni Martinovich de Araújo Calábria, advogado
(Foto: Kamylla Lima/ G1)
Já o advogado de Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, Giovanni Martinovich de Araújo Calábria, aborda possíveis falhas no laudo psiquiátrico realizado no cliente. “Nós vamos demonstrar e rebater as falhas que existem nos autos. Os advogados anteriores nada fizeram em defesa de Jorge. Vamos provar que o laudo psiquiátrico se encontra inválido. Jorge é beneficiado ao INSS [Instituto Nacional do Seguro Social]. O INSS afirma que ele é esquizofrênico e paranóico. Quero mostrar que podemos fazer justiça”, declara.
Audiência
O trio acusado de canibalismo participa de uma audiência de instrução nesta quinta-feira (29) em Garanhuns, no Agreste de Pernambuco. Jorge Beltrão Negromonte da Silveira, Isabel Cristina Torreão Pires e Bruna Cristina Oliveira da Silva são acusados de duplo homicídio triplicamente qualificado, vilipêndio (violação) e ocultação de cadáver, segundo o promotor Jorge Dantas.

Ainda segundo o promotor, cada um teve “uma participação bem clara nos crimes”. A audiência é aberta ao público e realizada no Fórum Eraldo Gueiros Leite. São 27 testemunhas e nesta quinta-feira (29) devem ser ouvidas 18, incluindo os três acusados. Uma testemunha não foi encontrada e algumas serão ouvidas em outras comarcas.

Entenda o caso
O inquérito relata que Jéssica Pereira era moradora de rua, tinha 17 anos, uma filha de um ano e aceitou viver com os acusados. Eles planejaram ficar com a criança depois de matar a mãe. Em Garanhuns, as vítimas foram Giselly Helena da Silva, 31 anos, e Alexandra Falcão da Silva, 20 anos, mortas, respectivamente, em fevereiro e março de 2012.
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Trio é acusado de crimes de canibalismo (Foto: Luna Markman/ G1)Trio é acusado de crimes de canibalismo
(Foto: Luna Markman/ G1)

De acordo com a polícia, a carne dos corpos das vítimas era fatiada, guardada na geladeira e consumida pelo trio. A criança, inclusive, também teria comido da carne da mãe. Eles teriam até utilizado parte da carne das vítimas para rechear coxinhas e salgadinhos que vendiam em Garanhuns.
Os acusados afirmam fazer parte da seita Cartel, que visa a purificação do mundo e o controle populacional. A ingestão da carne faria parte do processo de purificação. O caso veio a público depois que parentes de Giselly Helena da Silva denunciaram o seu desaparecimento. Os acusado usaram o cartão de crédito da vítima em lojas de Garanhuns e foram localizados. Uma publicação contendo os detalhes dos crimes – registrada em cartório – foi encontrada na casa dos réus.
Do G1.Com

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