Registros de Nossa História: São Joaquim de outrora

Na seção de artigos sobre a história local, tenho me dedicado a pesquisa sobre o município de Agrestina, com o adensamento da leitura, da pesquisa e dos achados, acabamos nos deparando com escritos de outros municípios. Um deles, me transportou ao município de São Joaquim do Monte, terra que remonta aos meus antepassados. A lacuna que sentia, diante da ausência da escrita de um artigo sobre o município de São Joaquim, hoje, será em parte sanada. Espero que os são joaquinenses que tiverem a oportunidade de fazer a leitura deste singelo texto, possam se recordar, ou compreender um pouco sobre São Joaquim de outrora.

Minha ligação com São Joaquim do Monte vem da descendência do meu bisavô paterno, Laurindo Roberto Monteiro, filho de José Francisco Monteiro e Theresa Maria de Jesus. Laurindo casou-se em 1927, com a bebedourense Maria Amélia de Jesus, e fixaram residência nos sítios Manibu e Tamanduá, ambas propriedades localizadas no município de São Joaquim. Foi em São Joaquim do Monte, que meu saudoso avô paterno Sebastião Francisco Monteiro, nasceu, criou-se, e lá residiu, até contrair o matrimônio com minha saudosa avó Maria do Carmo Monteiro, ao contrário do pai, mudou-se, radicando-se em Agrestina.

Na foto: Sr. Laurindo | Foto: Arquivo Pessoal da família Monteiro.

Assim como Bebedouro (Agrestina), o município de São Joaquim conseguiu sua autonomia política no ano de 1928. O processo de ocupação e povoamento da terra da romaria do frei Damião, é mais recente do que a ocupação do território de Bebedouro. Um fato curioso na história de ambos os municípios, é que uma decisão do IBGE, logo após a revolução de 1930, solicitou a supressão dos municípios recém-criados, penalizando assim a grande maioria dos municípios criados através da Lei n° 1931. Os municípios que não conseguissem aumentar a arrecadação corriam enorme risco de voltarem a condição de Vila, neste caso, São Joaquim voltaria a pertencer ao Bonito. No que se refere a Agrestina, chegou-se a sugerir a supressão, porém a sede do município seria transferida do Altinho para Bebedouro.

Alguns moradores de São Joaquim, temendo o risco iminente de perderem a autonomia política, haja vista, decisão do governo estadual, apelaram inclusive para os jornais de grande circulação na capital estadual, no sentido de combater a assinatura de tal ato,  que consistiria na supressão do município, resolveram escrever aos meios de comunicação. Usando para esta finalidade o Jornal do Recife, que na edição de 5/12/1931, na seção destinada aos municípios, publicou uma carta dos moradores de São Joaquim. Concluindo a matéria, o redator pediu a conservação da autonomia de São Joaquim, alegando que: ”pelo seu progresso e pela sua independência econômica bem merece esta recompensa.”

Utilizei este texto como fonte de pesquisa, e nele extrai algumas informações as quais considerei pertinentes para compreensão da evolução daquele município. Segundo as informações constantes na carta, a cidade apesar de ser nova, possuía cerca de 600 casas, com uma população de quase 3 mil habitantes. Possuía na época, todas as ruas arborizadas, com água canalizada, luz elétrica, lembrando que nesta época, a energia elétrica era gerada através de motores, possíveis, graças aos investimentos do poder executivo, um cine-teatro, inclusive contava com serviços telefônicos em casas particulares. É ressaltado no texto, que os serviços de telefonia ligavam São Joaquim aos municípios de Bezerros, Bonito e as vilas de Camocim e Sapucaia, e, que em breve estariam também interligadas as redes de Bebedouro (Agrestina), Altinho, Caruaru e São Caetano.

No tocante aos aspectos da vida econômica, o texto ressalta que: “a indústria e o comercio acham-se muito adiantados. O café e o algodão e a criação do gado são as principais riquezas do município havendo muitos motores e usinas para despolpar o café e beneficiar o algodão.” Os são joaquinenses, afirmam ainda no texto que: “seria doloroso que um povo que sabe trabalhar tanto e              que tanta vida e tanto progresso tem sabido dar a este município visse desnudando este das vistas de liberto e novamente escravizado.”

Por sorte, a reforma política e administrativa proposta nos idos de 1930-1931, acabou não afetando estes municípios, porém deixou aos pesquisadores,  escritos tais como este. Textos nos quais,  a população local, de forma patriótica, defendeu os interesses locais e bradou em defesa da permanência da autonomia dos seus municípios. Aos são joaquinenses, não poderia deixar de escrever este artigo e externar que o patriotismo de outrora, seja alimentado pelo munícipes da contemporaneidade, para que estes, a exemplo dos anônimos dos idos de 1930, possam também defender os interesses da coletividade e lutar pela prosperidade e o progresso da terra da romaria de Frei Damião.

Paulo Junior

Paulo Junior, tem 32 anos e Licenciado em Historia pela FAFICA, e Bacharel em Serviço Social pela Anhanguera, desde 2008 é Professor da Rede Estadual de Ensino, atualmente exerce a função de Gestor Escolar na Escola Santo Amaro, município de Caruaru. Além de Professor, atua como historiador, tendo como linha de pesquisa a Historia local, sendo relevante sua contribuição para a produção historiográfica do município de Agrestina.

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