Perdas Pedagógicas (in memoriam Luana Andrade e Jardielle Souza) Por Elaine Silva.

Há tempos planejava criar esse blog. Mas não queria começar a primeira publicação dessa forma. Primeiro, peço desculpas aos meus amigos revisores de texto e professores por algum erro que apareça aqui… Esse texto é algo do fundo do meu coração. Acabo de saber que minha ex-aluna Luana Andrade faleceu de um ataque cardíaco… até me dói escrever isso (aliás, está ruim até de digitar, pois minhas mãos tremem). Me dói mais ainda lembrar que é a segunda aluna que perco em menos de um ano (na semana do Dia do Professor perdi Jardiele, uma das melhores amigas de Luana).

Eu não sei exatamente o que pensar ou que escrever. Só sei que preciso externar isso de alguma forma. Meu coração pede isso. Minha intimidade com as palavras escritas pede isso. Vou deixar que as palavras fluam sem leis, sem regras gramaticais. Só sentimento. Só alma.

Não consigo compreender essa lei da vida,  que nos leva pessoas que amamos. Eu ainda não cheguei a ver o corpo de Luana… Não sei se tenho coragem, se não vou, ou se vou e sano logo essa dúvida, pois para mim sinto que isso é uma mentira.

Digo sempre aos meus alunos que, por mais “raiva” que alguns façam, o jeito maroto que eles usam para contornar as “traquinagens” nos conquista e faz com que nos apeguemos a eles. E quando nós sabemos de uma notícia dessas, é como se desse um baque no coração. As mãos gelam. A garganta trava com o choro querendo sair. A cabeça fica confusa imaginando ser tudo uma grande mentira e um grande susto. As mãos pegam logo o celular para mandar uma mensagem dizendo “Luana, para de palhaçada e responde logo esse zap”.

Luana e Jardiele tinham esse jeito maroto. Só tinham tamanho, meu Deus (principalmente Luana, que era bem mais alta que eu, e vivia rindo da minha cara por isso), mas o coração, o olhar e o sorriso típicos de uma criança arteira. A sala da qual elas faziam parte (turma que ensinei desde a 7ª série e só me afastei no 2º Ensino Médio por questões de contrato vencido) era daquelas salas que marcam um professor para o resto de sua vida. Algumas salas marcam de forma positiva, outras de forma negativa. Mas a turma delas (e elas também), me marcaram da forma mais positiva possível.

O que me dói é que guardo a expectativa de que morrerei primeiro que meus alunos, e terei o prazer em ver que a maioria deu certo na vida e se tornaram gente de bem, com seus empregos e exercendo suas funções com o mesmo amor que eu sinto ao exercer a minha (eles me permitiam desfrutar desse amor à minha profissão)… Infelizmente, em menos de um ano essa expectativa foi quebrada duas vezes.

Um certo autor, que não me recordo o nome agora, disse que quando morresse poderia não ter  muitos filhos biológicos, mas queria deixar muitos filhos pedagógicos. Eu também tenho essa vontade. Mas meu coração se aperta ao saber que perdi duas filhas pedagógicas…

A morte de Jardiele e de Luana me fazem cair a ficha de que realmente a vida é curta. Às vezes me esqueço disso, e esses baques da vida me fazem lembrar da pior maneira possível (a morte repentina da minha tia Jose, que eu carinhosamente chamava de Teté também me mostra isso). Duas meninas com seus quase vinte e poucos anos de vida… Todo um futuro pela frente… Meu Deus. Duas de uma mesma turma que já foi minha turma…

Lembro-me de Luana no dia da morte de Jardiele, as mensagens que trocamos pelas redes sociais, já que ela não tinha condições psicológicas e não aceitava ver a grande amiga sem vida… Não foi ao enterro, não ia aguentar…

Lembro-me também do meu desejo de ver aquela turma se formar. Infelizmente não pude realizar por questões contratuais…

Muitas lembranças vêm na cabeça agora…

As brincadeiras com meu tamanho na sala de aula…

As risadas das palhaçadas dessas duas…

As carinhas de criança ao visualizar as fotos que tirei do meu último dia de aula (já que estava substituindo um professor) na turma deles da 7ª série…

 

Agora acredito que, se essa notícia foi realmente verdade, Luana e Jardiele estão “zuando” (como elas mesmas diziam) uma com a outra no céu.

Professora Elaine Cristina da Silva

                                                                    08-06-16

 

PUBLICAÇÃO FEITA NO BLOG “TIA LALA NA NET”:

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Elaine Silva

Elaine Cristina da Silva (nascida em São Joaquim do Monte - PE, 1989) atua como professora da área de Linguagens na Escola de Referência de Ensino Médio Frei Epifânio. É musicista e exerce também a função de revisora de texto na equipe de Iolita Campos. Graduada em Letras com Habilitação em Língua Inglesa pela FAMASUL (Palmares), possui especialização em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Estrangeira pela UNINTER. Apaixonada por música e estudos sobre língua estrangeira, está constantemente buscando novos conhecimentos acerca destes e de diversos assuntos. “Acredito que o conhecimento é algo infinito e o convite feito por Jonata Daniel para ser colunista em seu site me permitirá conversar acerca de diversos assuntos, transmitindo um pouco do que sei e também aprendendo através das pesquisas e interação com os leitores.”

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