Especial – A devoção a Virgem do Desterro

Paulo Roberto Monteiro Junior

 Professor e historiador

 

Em Bebedouro (Agrestina), a devoção a Nossa Senhora do Desterro, teve inicio no ano de 1922, no sitio Cachoeira, no oratório particular pertencente ao Sr. Antônio Pedro da Silva, conhecido por Pedro da Cachoeira.

Com o passar dos tempos, o Sitio Cachoeira começou a atrair um grande número de devotos. No ano de 1926, a festa da Cachoeira foi notícia até no Jornal do Recife, conforme pode ser verificado na matéria abaixo:

 

FESTA DA CACHOEIRA – Com a pompa dos anos anteriores realizou-se no dia 01 do fluente, a tradicional festa de Nossa Senhora do Desterro, no povoado Cachoeira, deste districto de Bebedouro.

Calcula-se em trinta o número de auto-caminhões e de passeio que, durante a noite do referido dia, se ocuparam no transporte de pessoas de Bebedouro, Altinho e Caruaru.

Em Cachoeira, presentes à referida festa, podemos calcular, francamente, três mil pessoas sendo, apesar dos boatos espalhados dias antes, digna de louvores a perfeita ordem reinante, graças a atividade do subdelegado de polícia, sargento Luiz Ignácio da Silva. (Jornal do Recife, edição n° 44, de 23/02/1926 na página 03)

 

Quando em visita pastoral à Paróquia de Bebedouro, em Maio de 1928 , o então Arcebispo de Olinda e Recife D. Miguel de Lima Valverde, conforme constante nos registros paroquiais fez uma recomendação ao vigário de Bebedouro, deixando registrado em livro paroquial os seguintes termos:

“Recomendamos ao Revmo. Vigário, que com prudência procure acabar com os graves abusos que vem se dando todos os anos com a chamada festa de Nossa Senhora do Desterro, recusando todo e qualquer caráter religioso a tal festança.”

Diante de autorização verbal e escrita, o vigário Pe. Manoel de Andrade Lima, providenciou o fim da festa no lugar Cachoeira, realizando a transferência da imagem da santa no mesmo ano, fato ocorrido em meados de 1928.  Em 02 de fevereiro de 1929, foi realizada a 1ª festa a Nossa Senhora do Desterro na sede do recém-criado município do Bebedouro. Atendendo aos requisitos solicitados pelo Bispo, os festejos ganhavam um “caráter religioso”. Segundo os registros paroquiais, no ano de 1929, foi realizada missas solenes, procissão às 16 horas e benção do Santíssimo Sacramento às 18 horas e quermesse. No ano seguinte conforme registros paroquiais: “grande multidão assistiu a festa do ano”.

Provavelmente, o bispo demonstra a preocupação com a prática do catolicismo popular existente na festa da Cachoeira, ou interesse no controle oficial da igreja católica, que seria possível, caso a festa fosse transferida para a sede da Paróquia.

A população do sítio Cachoeira não aceitou a decisão de D. Miguel, e diante da resistência, o Arcebispo autorizou o Padre a mandar confeccionar uma réplica da imagem de Nossa Senhora do Desterro. Em 26 de novembro de 1931 o Pe. Manoel de Andrade devolveu a imagem original ao seu dono, Pedro da Cachoeira, anos depois, foi erigida uma capela em Barra do Riachão, a qual abriga até hoje a antiga  imagem.

No ano de 1935, D. Miguel Lima Valverde, retornou a Bebedouro, e participou da festa do dia 02, sendo o primeiro arcebispo a participar dos festejos religiosos em honra a Nossa Senhora do Desterro.

.Outra curiosidade, é que a imagem representando a fuga da Sagrada Família para o Egito, foi adquirida em 1976, sendo trazida em procissão de Caruaru até Agrestina. Aqui chegando foi a imagem acompanhada festivamente por mais de duzentos automóveis, com vibrações e aclamações, isso em 1º de fevereiro, conforme registros paroquiais feitos pelo Padre Nestor.

 De 1922 até 1928 a festa aconteceu exclusivamente na Cachoeira, a partir de 1929, Bebedouro, hoje, Agrestina, tem promovido esta devoção que, como outrora, atrai milhares de devotos que unidos cantam: “Viva a mãe de deus e nossa”.

 

Paulo Junior

Paulo Junior, tem 32 anos e Licenciado em Historia pela FAFICA, e Bacharel em Serviço Social pela Anhanguera, desde 2008 é Professor da Rede Estadual de Ensino, atualmente exerce a função de Gestor Escolar na Escola Santo Amaro, município de Caruaru. Além de Professor, atua como historiador, tendo como linha de pesquisa a Historia local, sendo relevante sua contribuição para a produção historiográfica do município de Agrestina.

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